O Telefonema

Dois jovens conversando, um lendo revista e outro parado, ouviam música. O telefone toca.
- Pronto? Sim, diga? Não, não... ele não esta. Acredito que já esteja voltando, sabe como é né? Sexta-feira o serviço dobra! Sim, sim, mas acredito que ele não vai demorar! Ok então. Pode deixar que eu dou o recado. Tchau.
O jovem aumenta o volume e se senta novamente.
- Quem era?
- Ah, um amigo do meu pai, queria saber que hora ele ia chegar.
- Encheção de saco...
- Não, seria se estivesse fazendo algo interessante...
- Minha companhia não é interessante?
- Você fica o tempo todo lendo esta revista! Até parece que está se interessando!
- Nós já conversamos sobre isso.
Silencio entre os dois. O rapaz com a revista continua a folheá-la assiduamente. O outro, entediado com a música, troca de faixa. O silêncio entre ambos continua, ele tenta quebrá-lo.
- Sabe esse negócio de telefone é tão estranho...
- Porque?
- Ah sei lá, apenas me ocorreu que é uma aparelho sem maiores benefícios.
- Sim, mas você já pensou também quantos desencontros puderam ser evitados, quantas vidas dependeram deste aparelho pra continuar vivendo, seus pais, por exemplo, poderiam não ser seus pais por causa dele.
- Pois é... mas eu ainda acredito q tudo seria mais simples sem ele.
- Porque?
- Não sei! Não tenho razoes, argumentos para defender minha idéia! Apenas me surgiu que a vida seria mais útil sem esse aparelho. Porque tudo pra você tudo precisa ser tão explicito?
- Cara você ta me assustando... eu que banco o intelectual, não você!
- Aliás, eu tenho um argumento sim, e ele resume a farsa que o telefone é.
- Estou ansioso, vamos diga!
- O hálito...
- ...o que o hálito tem a ver...
- Não me interrompa, por favor apenas acompanhe. Quando as pessoas falam pelo telefone seu hálito não pode ser sentido certo?
- Certo.
- Pois então quer coisa mais irreal, mais falsa que isso?
O outro rapaz, atônito, larga a revista.
- Eu não estou te entendendo cara!
- Poxa cara você me decepciona...
- E vc está me assustando
- Pense bem: em uma conversa o hálito influi muito no andamento da ta. Se você conversar com alguma “boca de esgoto” provavelmente a conversa não irá se prolongar certo? Pois então! Assim como você disse anteriormente, imagine quantos encontros, quantas coisas poderiam ser evitadas por esse distúrbio bucal, se assim podemos chamá-lo! O telefone faz com q as coisas não sigam o seu fluxo natural neste sentido!
- - acho que o cara que inventou o telefone não pensou por esse lado quando projetou a máquina.
Outro silêncio. Os jovens se impressionavam com as conclusões e com o tom que a conversa tomara. Para tentar disfarçar o impacto daquilo o jovem finge continuar folheando a revista. O outro porém continua:
- Sabe vou tomar uma atitude drástica: a partir de hoje nunca mais vou usar esta máquina. Não quero ver os rumos da minha vida alterados por esse aparelho maldito.
O outro jovem continuava fingir ler a revista, mas pensando seriamente em aderir ao movimento. Para não demonstrar levanta outro assunto.
- e como anda a divulgação do show dos Nefilins? Me disseram que a Dani vai estar por lá...
O rapaz não responde. Mais silêncio e o telefone toca. Um, dois, três toques... A tese tão belamente defendida agora colocada à prova. Resistência?
-Alô Dani? Não, não... agora? To indo já! Sabe... esperei ansioso por sua ligação!
Sr Tarântula


1 Comments:
Hum,nunca tinha parado pra pensar que as balas de menta podem ter o mesmo efeito de um telefonema!!!!
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