Saturday, March 11, 2006

VIAJE - presente do subjuntivo

– LON-DON – o garoto leu com certa dificuldade uma plaqueta. Estava em pé, olhando para cima, diante dos grandes relógios do saguão central do aeroporto.

Fixara por alguns segundos o olhar em cada um dos sete relógios e, mentalmente, ia lendo o nome de cada cidade ali correspondida. Prestava atenção aos ponteiros e às horas que eles marcavam, tentava imaginar como aquele montante de números em círculo, cobertos minuto sim, hora não, podiam informar com exatidão o tempo, assim como tentar entender o porquê de algumas cidades estarem com o mesmo horário e outras não.

Cada movimento do ponteiro mais fino, de cor diferente, era um bater de cílios: seu corpo estava tomado por estes giros. Um movimento rítmico e cadenciado. Outro movimento e alguém corria apressado. Outro movimento e as malas sobre rodas faziam-se passar grunhindo. Mais um movimento e um barulho de avião rompia o ar. Foi neste momento que o garoto teve a impressão de que os ponteiros adquiriram força e giravam como a turbina da aeronave que escutara há pouco. Estava hipnotizado. Seu coração estava batendo no mesmo compasso. Pôde, por um breve intervalo incalculável, talvez uma fração de milésimos, se desligar de seu mundo. Só não pôde mais porque a dor, que talvez vinha da nuca, o arrancou, trazendo-lhe de volta.

– Ande moleque! Vai ficar parado agora? Cadê o dinheiro? Já vendeu as balas?
O olhar pueril sobre os relógios foi aos poucos se embaçando e, conforme pendia a cabeça, um vulto ia tomando forma em primeiro plano. Era sua mãe. O garoto colocou a mão em um de seus bolsos da bermuda que vestia, o bolso que considerava sujo, e tirou algumas notas amassadas e encardidas, umas dobradas sobre as outras. Um agudo barulho de moedas batendo-se entre si foi perceptível também. Em duas tiradas de mão do bolso, entregou tudo o que conseguira a sua mãe, e esta contou nota por nota, moeda por moeda: – Ande!

Novamente a mulher virou um vulto enquanto o garoto baixava-se para pegar sua caixa de papelão com tubinhos de bala dentro. “Redondas que nem os relógios. Muitos relógios aqui dentro, em minhas mãos” pensou o garoto enquanto levantava-se e ia em direção à escada.

A escada situa-se ao lado direito do saguão e liga-se ao mezanino em forma espiralada. Vista de cima, a escada formaria um círculo perfeito. O que chamaria a atenção seria uma pequena cabeça com cabelos pretos contornando este círculo, onde a cada passo, esta cabeça ficaria maior a quem observasse. Enfim o garoto conquistara o último degrau e meneou seu corpo em busca de um comprador para suas balas, que agora já se eram relógios em miniatura.

No café ao canto um sujeito, aparentemente, não estava fazendo nada, muito diferente das outras pessoas que corriam, mexiam em computadores, falavam em aparelhos celulares. Apenas possuía em sua mesa uma xícara e uma espécie de pãozinho, que parecia não ter sido beliscado ainda. De onde o garoto estava, não dava para se enxergar tudo muito bem: apenas viu que o homem estava sentado de costas para os relógios, que iam ficando maiores a cada passo dado. Quando os relógios ficaram em seu tamanho máximo, o homem estava postado a sua frente.

– Uma por cinqüenta centavos. Três por um real – disse ao tranqüilo sujeito, sem olhar muito em seu rosto, mostrando-lhe a caixa com os tubos de balas.
– Duas, por favor – esperou um momento. Queria saber qual seria a reação daquele pequeno vendedor. Mas como o garoto não retrucava, parecia com o olhar perdido para a frente, prosseguiu, tentando ser simpático: – Não, não. Melhor três. Fica o mesmo preço, não é? – e sorriu para ele.
– Fica. Fica sim – pegou três pacotes de balas da caixa em suas mãos e os colocou sobre a mesa. Recebeu o dinheiro e o colocou no bolso sujo. Agora, mais perto do homem, pôde notar que a xícara continha café com leite e que o tal pãozinho era um pão de batata.

O homem percebeu uma certa inquietação naquele pequeno ser que se dispunha a sua frente. Já teve uma larga experiência com crianças. Sabia que o que faltava ao pequeno ser não era dinheiro, mas sim alguém que pudesse-lhe contar uma história. Uma história que o transformaria, que o fizesse viajar.
– Diga, meu rapaz, está tudo bem com você?
– Sim – disse o garoto notando que o relógio London estava quase centrado na cabeça daquele homem.
– O que tanto olha aí atrás de mim? – Já não podia deixar de perguntar isso.
– Os relógios. Marcam horas diferentes. Alguns iguais. Por que?
Sim, a palavra com entonação “por que?” era uma das mais ouvidas por este homem, e imaginou se teria algo intrínseco a ele, que faria um garoto desconhecido usar esta mesma expressão. Fez um sinal com a cabeça para que o garoto se sentasse. E o garoto sentou.
– Cada relógio marca as horas das principais cidades. As principais cidades são aquelas para onde as pessoas viajam mais. Cada cidade, dependendo do lugar onde está, tem um horário diferente daqui. Os relógios servem para que as pessoas possam acertar seus próprios ponteiros, e desembarcar na cidade com seus relógios arrumados.
Isto não fazia sentido ao garoto. Era difícil imaginar que ao mesmo tempo em que estavam ali, conversando, haveria uma outra cidade com hora diferente. O homem percebeu esta falta de compreensão do garoto.
– Imagine que este pão de batata seja o nosso planeta. Tão redondinho quanto! – o homem estava se divertindo ao notar que o garoto estava assustado – E imagine agora que eu sou o Sol.
O garoto olhou para o homem e conseguiu imaginar ele sendo o Sol. Com uma luz tão ofuscante que seu brilho tapava os relógios atrás.
– Eu sou o Sol. Este pãozinho é a Terra. Minha luz só bate nesta parte que está virada pra mim. A parte que está virada pra você não recebe minha luz, está no escuro – começou a girar em sentido horário o pratinho que acomodava o pãozinho – Note que, conforme a Terra vai girando, a parte que estava no escuro vai aos poucos recebendo a luz do Sol, e a parte que estava voltada para o Sol, vai indo para o escuro. Assim, temos as noites e os dias!
Olhos atentos aquele pão. Tanto os do homem quanto os do garoto.
– Veja: se esta parte que está voltada pra mim é o Brasil, logo esta parte que está voltada pra você é o Japão.

O garoto já ouvira em algum lugar que o Japão era do lado contrário ao do Brasil. Que as pessoas andavam de ponta cabeça lá.

– E se aqui no Brasil é meio-dia, no Japão será meia-noite – começou a apontar para diferentes partes do pão de batata – E, por isso, cada cidade em determinado local, tem uma hora diferente, mas as que estão próximas, na mesma faixa, possuem a mesma hora!

O garoto começou a sentir seu coração batendo mais forte. A história que acabara de ouvir era simplesmente fantástica. Esconder seu espanto e admiração se tornara impossível, o que encheu de alegria o homem.

– Pois bem meu garoto! Você deve estar com fome. Vou repartir este planeta com você – e serrou o pão de batata com uma faca prateada brilhante, que conforme ia cortando, ia perdendo seu brilho com as manchas de requeijão que desprendia do salgado. Um pouco de requeijão vazou pelo prato. O homem pensou que se o garoto fosse um pouco mais velho, seria a oportunidade ideal para explicá-lo o que era o magma, e como funcionava os vulcões. Poderia ainda juntar as duas partes novamente e dizer-lhe o que eram as placas tectônicas. “Melhor não. Muita informação por hoje”.
Com um guardanapo embrulhou o pedaço do pão de batata e o entregou ao garoto: – Aqui está sua parte! O Brasil!
“Qual seria o peso do Brasil?” – lentamente o garoto estendeu as duas mãos. O embrulhou ainda mais e segurou firmemente:
– Obrigado.
Queria ter podido falar mais. Agradecer mais. Mas sabia que não conseguiria. Sempre fora travado com as próprias palavras.
– Boa sorte! – O sorriso do homem gentil mostrou ao garoto que ele não precisava se culpar por não ter dito mais nada.

Quando deu por si, o garoto já estava descendo a escada em espiral, com os relógios do saguão passando por sua vista em borrões de velocidade. Ao pé da escada freou.Olhou para seu Brasil e não sentiu vontade de comê-lo. Não era a hora ainda. Colocou-o em seu bolso que considerava limpo, oposto ao bolso considerado sujo.
“Se aqui no Brasil é meio-dia, no Japão será meia-noite” – ficou com essa frase repetindo em sua cabeça enquanto vendia balas-relógios a outros compradores.
Pensava na Terra girando: Claro e escuro. Noite e dia. Quem sabe alguns anos mais a frente este garoto soubesse que, no século VI antes de Cristo, Parmênides já pensava nestas dualidades. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser.
O garoto notou que já estava começando a anoitecer. E as pessoas continuavam apressadas: “Elas estão apressadas porque estão fugindo da noite. É por isso que elas viajam. Saem de um lugar que está anoitecendo para irem a um outro, onde o dia está nascendo. As pessoas que viajam têm medo do escuro. Vivem viajando para estarem sempre com a luz do Sol por perto” – o garoto sentiu-se feliz por mais esta descoberta.

Era hora de ir embora. Viu os relógios grandes do saguão principal refletidos nas grandes portas de vidro do aeroporto. Conforme as portas se dividiam e iam abrindo para os lados, os mesmos relógios iam sumindo. E o ar invadiu o garoto quando ele saiu. Os raios partintes do Sol que anunciavam a chegada da escuridão o iluminou parcialmente. “Meu rosto está iluminado. Minhas costas estão escuras” – lembrou-se imediatamente do seu pão de batata. Desembrulhou-o com cuidado, pois muito do requeijão estava grudado no guardanapo. “A hora é essa”. Em três mordidas o Brasil ficou no escuro.




O Caranguejeira

1 Comments:

At 10:43 PM, Blogger Rodrigo Guidotti said...

Obrigado pelo comentário! Espero poder escrever muito mais vezes! Todos aqui escrevem muito bem, cada um com seu perfil.

Só preciso aprender a escrever contos menores!

Abraços!

 

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