Sunday, April 09, 2006

O Vampiro

Eu sou um vampiro

“Eu adoro meu ego e adoro minha vida, pois sou o único deus que existe”.

Fui rejeitado no céu e no inferno, condenado a viver nas trevas terrestres, mendigando nas noites frias por um pouco de sangue e tendo que me consolar por passar todas as tardes e manhãs da minha existência dentro de uma urna.

Poucos são os que acreditam que eu existo, pobres humanos, não sabem distinguir o que realmente existe no mundo real, têm medo de sua própria condição e desconhecem o seu próprio destino.

Tenho 366 anos, este caso aconteceu há algum tempo, você pode não acreditar, mas não é isso o que é importante, aliás, um conto pode ser narrado por todo tipo de narrador; um bom ou mal, um mentiroso ou um verdadeiro, um ser real ou um sobrenatural, o que é mais importante é ouvi-lo até o final com muita atenção, você sempre aprenderá algo com ele.

Era uma noite parisiense, tomei um ônibus na linha S em plena meia-noite, apesar do horário, a movimentação de pessoas fazia com o ritmo lembrasse o rush do meio-dia. Era nesse cenário que eu precisava encontrar minha vítima, fiquei observado o movimento até que mirei um homem de uns 25 anos, usava um chapéu mole rodeado por um cordão em vez de fita, um pescoço enorme e apetitoso. Sim, ele seria minha refeição, era interessante como seus olhos não paravam de penetrar nos meus, pensei que ele desconfiasse de mim, mas hesitei, sabia que isso não era possível.

Aqueles olhos claros queriam me dizer alguma coisa, talvez eles implorassem pela vida, talvez fosse um chamado, ou um olhar soberbo, qualquer que fosse a charada para aquele enigma eu estava certo de minhas intenções, porém não conseguia para de compenetrar naqueles olhos, então pela primeira vez desde que me tornei imortal passei a refletir no que fazia.

Reflexos de uma vida sem importância atravessavam minha mente tão fortes como lanças atiradas, podia ver, agora, naqueles olhos, um acaso de tê-lo encontrado nesse momento único de consciência em minha vida sem valor e um destino que eu não sabia decifrar, ambigüidades que levariam a loucura. Como seria rotineira aquela vida, mais um entre bilhões, passos que não voltam e que caminham em direção a eterna sepultura, foi um momento de pena. Deixe-o partir sem tirar sua vida.

Duas horas mais tarde o reencontro na Cour de Rome, na frente da Gare Saint-Lazare com o mesmo chapéu e com o mesmo olhar compenetrante, sem estar tomado por aquele espírito de piedade o matei e me alimentei de seu sangue. Nunca mais veria aqueles claros compenetrantes, mas a partir daquele momento pude perceber o quanto a miséria e a fragilidade humana faziam de mim um ser potente.

Marido da Viúva

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