Eclipse Lunar

A luz foi ganhando à força o quarto escuro à medida em que a porta se abria. O olhar de uma menina tremeluziu conforme o feixe luminoso por seu rosto alvo ameaçava. Fungou assustada e recolheu-se mais. Inútil: o corpo aproximou-se. Debateu com as pernas e tentou gritar. A resposta veio em uma bofetada que lhe tirou sangue do nariz. A menina com feridas nada cicatrizadas estava entregue. Novamente a dor era sentida por dentro. Dor sobre dor. Profunda.
Caída luminescente, acompanhou a saída da sombra, resquício de um corpo. Vestidinho de florzinha agora rasgado, sentia-no molhado e pegajoso. Não mais lhe pertencia. Nojo. Ouviu uma porta bater. Penumbra.
Arrastou-se para junto da parede fria. Sabia que o contato a esquentaria. Nariz arenoso, grosso. Capaz de sentir cheiro, sentiria o bafo nojento em si. Ânsia. Fosse possível, arrancaria a sua pele, não mais sua como o vestido.
Lágrimas secas no silêncio. Tinha pena de si: ninguém ao menos a escutara. Encostou o ouvido na parede e foi se embalando com os sussurros que vinham não imaginava de onde. Talvez água correndo pelos encanamentos, energia correndo pelos fios. Talvez um meio de comunicação com o outro lado.
Teve a impressão de ouvir a sua mãe. Não ouviu o que dizia mas sabia o que era: “Depois das tribulações o sol se converterá em trevas, a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor”.
Queria que o dia viesse logo. Pancadas na porta. Face oculta. Gritos abafados que ninguém jamais ouviu. Umbra.
O Caranguejeira


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