O Relógio

5:00 – Acorda. Seu Antônio olha para o relógio e agradece:
_Como é bom te ouvir mais uma vez.
5:15 – Reza. Seu Antônio pede a Deus para que o tempo hoje seja suficiente para fazer tudo o que precisa.
6:00 – Ônibus lotado. Todo mundo correndo contra o tempo para chegar ao trabalho. Seu Antônio senta do lado de uma senhora que parece não ter muita pressa:
_Bom dia. Cumprimenta a mulher com uma voz polida.
_Bom dia.
_Mais um dia de trabalho, não é?
_Sim, mais um dia que não podemos perder tempo.
_Meu Deus, o Senhor tem algum compromisso importante?
_Sim, todos os dias são compromissos importantes.
_Mas hoje é um dia especial?
_Talvez, hoje é meu penúltimo dia de trabalho.
_Entendo, agora poderá aproveitar melhor o tempo com sua família.
_Não tenho família.
_Oh, sinto muito, é viúvo?
_Não, nunca fui casado.
_Nunca teve uma companheira?
_Casamento faz perder muito tempo. Tempo é dinheiro, tempo é precioso. Imagine todo o sofrimento que uma união pode causar, tantos transtornos que consomem tantos terços do nosso tempo. Romance, enlace, filhos doentes, mulheres grávidas, tudo isso é para quem tem tempo.
_E todo dia o senhor faz a mesma coisa?
_Tudo muito regrado, tudo na hora certa.
_E aos fins de semana?
_Bem, sábado é dia de fazer compras e domingo é dia de ir à igreja agradecer a Deus pelo tempo de vida.
_Mas agora que se aposentará o que pretende fazer com o seu tempo?
_Ainda não sei, não tive tempo para pensar.
7:00 – Ônibus atrasado. Seu Antônio briga com o motorista:
_O senhor não tem relógio? Não sabe respeitar o tempo?
7:58- Chegada ao trabalho. Seu Antônio comemora por ter chegado dois minutos com antecedência:
_Essa foi por pouco!
8:00 – Batente. Seu Antônio faz tudo naquela empresa. Limpa, leva recados e papéis, atende telefone, abre a porta. Ouve sempre uma mesma música, cadente e sonora: Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac
17:00 – Saída do trabalho. Ônibus. Descida no ponto.
19:40 – Casa. Tv. Jornal. Reclamações.
_Bando de desocupados, por que não usam o seu tempo em coisas úteis ao invés de fazer malandragens. Argh!!
21:00 Cama. Dormir.
_Amanhã tudo começa outra vez.
Madrugada. O tempo passa ao som de uma mesma musica cadente e sonora: Tic tac, Tic Tac, Tic Tac.
5:00 – Dor. Telefone. Ambulância. Desespero.
_Meu Deus, não posso perder a hora, será que vai dar tempo?
6:00 – Mesa de cirurgia. Infarto. Morte.
_O tempo dele acabou. Lamenta o médico cirurgião.
_Agora resta comunicar à família. Diz a enfermeira com uma voz consoladora.
8:30 - ?
9:30 - ?
10:30 - ?
_Onde está o seu Antônio? Pergunta o patrão.
_Não sabemos senhor, ele nunca faltou, nem mesmo chegou atrasado ao trabalho. Sempre foi muito fiel ao seu relógio. Responde um dos funcionários.
_Muito estranho. Justamente hoje que é o seu último dia de trabalho? Por que ele faltaria justo hoje? Questiona novamente o patrão.
11:00 – Telefone. Notícia. Suspense.
_Quem era? Alguma notícia sobre o seu Antônio? Pergunta o patrão.
A secretária responde:
_Bom, parece que o relógio dele parou.
Marido da Viúva


