Sunday, February 26, 2006

O Relógio


5:00 – Acorda. Seu Antônio olha para o relógio e agradece:
_Como é bom te ouvir mais uma vez.
5:15 – Reza. Seu Antônio pede a Deus para que o tempo hoje seja suficiente para fazer tudo o que precisa.
6:00 – Ônibus lotado. Todo mundo correndo contra o tempo para chegar ao trabalho. Seu Antônio senta do lado de uma senhora que parece não ter muita pressa:
_Bom dia. Cumprimenta a mulher com uma voz polida.
_Bom dia.
_Mais um dia de trabalho, não é?
_Sim, mais um dia que não podemos perder tempo.
_Meu Deus, o Senhor tem algum compromisso importante?
_Sim, todos os dias são compromissos importantes.
_Mas hoje é um dia especial?
_Talvez, hoje é meu penúltimo dia de trabalho.
_Entendo, agora poderá aproveitar melhor o tempo com sua família.
_Não tenho família.
_Oh, sinto muito, é viúvo?
_Não, nunca fui casado.
_Nunca teve uma companheira?
_Casamento faz perder muito tempo. Tempo é dinheiro, tempo é precioso. Imagine todo o sofrimento que uma união pode causar, tantos transtornos que consomem tantos terços do nosso tempo. Romance, enlace, filhos doentes, mulheres grávidas, tudo isso é para quem tem tempo.
_E todo dia o senhor faz a mesma coisa?
_Tudo muito regrado, tudo na hora certa.
_E aos fins de semana?
_Bem, sábado é dia de fazer compras e domingo é dia de ir à igreja agradecer a Deus pelo tempo de vida.
_Mas agora que se aposentará o que pretende fazer com o seu tempo?
_Ainda não sei, não tive tempo para pensar.
7:00 – Ônibus atrasado. Seu Antônio briga com o motorista:
_O senhor não tem relógio? Não sabe respeitar o tempo?
7:58- Chegada ao trabalho. Seu Antônio comemora por ter chegado dois minutos com antecedência:
_Essa foi por pouco!
8:00 – Batente. Seu Antônio faz tudo naquela empresa. Limpa, leva recados e papéis, atende telefone, abre a porta. Ouve sempre uma mesma música, cadente e sonora: Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac
17:00 – Saída do trabalho. Ônibus. Descida no ponto.
19:40 – Casa. Tv. Jornal. Reclamações.
_Bando de desocupados, por que não usam o seu tempo em coisas úteis ao invés de fazer malandragens. Argh!!
21:00 Cama. Dormir.
_Amanhã tudo começa outra vez.
Madrugada. O tempo passa ao som de uma mesma musica cadente e sonora: Tic tac, Tic Tac, Tic Tac.
5:00 – Dor. Telefone. Ambulância. Desespero.
_Meu Deus, não posso perder a hora, será que vai dar tempo?
6:00 – Mesa de cirurgia. Infarto. Morte.
_O tempo dele acabou. Lamenta o médico cirurgião.
_Agora resta comunicar à família. Diz a enfermeira com uma voz consoladora.
8:30 - ?
9:30 - ?
10:30 - ?
_Onde está o seu Antônio? Pergunta o patrão.
_Não sabemos senhor, ele nunca faltou, nem mesmo chegou atrasado ao trabalho. Sempre foi muito fiel ao seu relógio. Responde um dos funcionários.
_Muito estranho. Justamente hoje que é o seu último dia de trabalho? Por que ele faltaria justo hoje? Questiona novamente o patrão.
11:00 – Telefone. Notícia. Suspense.
_Quem era? Alguma notícia sobre o seu Antônio? Pergunta o patrão.
A secretária responde:
_Bom, parece que o relógio dele parou.

Marido da Viúva

Sunday, February 19, 2006

O Telefonema



Dois jovens conversando, um lendo revista e outro parado, ouviam música. O telefone toca.

- Pronto? Sim, diga? Não, não... ele não esta. Acredito que já esteja voltando, sabe como é né? Sexta-feira o serviço dobra! Sim, sim, mas acredito que ele não vai demorar! Ok então. Pode deixar que eu dou o recado. Tchau.

O jovem aumenta o volume e se senta novamente.

- Quem era?
- Ah, um amigo do meu pai, queria saber que hora ele ia chegar.
- Encheção de saco...
- Não, seria se estivesse fazendo algo interessante...
- Minha companhia não é interessante?
- Você fica o tempo todo lendo esta revista! Até parece que está se interessando!
- Nós já conversamos sobre isso.

Silencio entre os dois. O rapaz com a revista continua a folheá-la assiduamente. O outro, entediado com a música, troca de faixa. O silêncio entre ambos continua, ele tenta quebrá-lo.

- Sabe esse negócio de telefone é tão estranho...
- Porque?
- Ah sei lá, apenas me ocorreu que é uma aparelho sem maiores benefícios.
- Sim, mas você já pensou também quantos desencontros puderam ser evitados, quantas vidas dependeram deste aparelho pra continuar vivendo, seus pais, por exemplo, poderiam não ser seus pais por causa dele.
- Pois é... mas eu ainda acredito q tudo seria mais simples sem ele.
- Porque?
- Não sei! Não tenho razoes, argumentos para defender minha idéia! Apenas me surgiu que a vida seria mais útil sem esse aparelho. Porque tudo pra você tudo precisa ser tão explicito?
- Cara você ta me assustando... eu que banco o intelectual, não você!
- Aliás, eu tenho um argumento sim, e ele resume a farsa que o telefone é.
- Estou ansioso, vamos diga!
- O hálito...
- ...o que o hálito tem a ver...
- Não me interrompa, por favor apenas acompanhe. Quando as pessoas falam pelo telefone seu hálito não pode ser sentido certo?
- Certo.
- Pois então quer coisa mais irreal, mais falsa que isso?
O outro rapaz, atônito, larga a revista.
- Eu não estou te entendendo cara!
- Poxa cara você me decepciona...
- E vc está me assustando
- Pense bem: em uma conversa o hálito influi muito no andamento da ta. Se você conversar com alguma “boca de esgoto” provavelmente a conversa não irá se prolongar certo? Pois então! Assim como você disse anteriormente, imagine quantos encontros, quantas coisas poderiam ser evitadas por esse distúrbio bucal, se assim podemos chamá-lo! O telefone faz com q as coisas não sigam o seu fluxo natural neste sentido!
- - acho que o cara que inventou o telefone não pensou por esse lado quando projetou a máquina.
Outro silêncio. Os jovens se impressionavam com as conclusões e com o tom que a conversa tomara. Para tentar disfarçar o impacto daquilo o jovem finge continuar folheando a revista. O outro porém continua:
- Sabe vou tomar uma atitude drástica: a partir de hoje nunca mais vou usar esta máquina. Não quero ver os rumos da minha vida alterados por esse aparelho maldito.
O outro jovem continuava fingir ler a revista, mas pensando seriamente em aderir ao movimento. Para não demonstrar levanta outro assunto.
- e como anda a divulgação do show dos Nefilins? Me disseram que a Dani vai estar por lá...
O rapaz não responde. Mais silêncio e o telefone toca. Um, dois, três toques... A tese tão belamente defendida agora colocada à prova. Resistência?
-Alô Dani? Não, não... agora? To indo já! Sabe... esperei ansioso por sua ligação!


Sr Tarântula