Wednesday, March 22, 2006

Arrumando as gavetas



Ricardo pensou estar no controle da situação. Até cantarolava o rapaz! Com o problema já esquecido, seguiria em paz e sim... finalmente dedicaria seu tempo à tão prometida organização mental. Primeiro arrumaria as gavetas, o maldito entrave que o impedia de começar. Uma a uma, de roupas a serem jogadas aos livros a serem relidos, planejava um trabalho impecável, minucioso e recompensador. Sonhava com os elogios posteriores recebidos e as gavetas... seriam apenas o começo. Pretendia faxinar o armário, mas as portas ainda pesavam de tal maneira, faltando coragem para realizá-lo. As gavetas, porém eram esforço primordial. De urgência aparou os cabelos, fez a barba (elemento ápice da retomada) colocou os óculos. Era como se o espelho dissesse de forma fraternal “este é o meu garoto...” Ricardo sabia não sentir um mero dejá vu ou renascimento. Tinha na bagagem experiência e pretendia usá-la a seu beneficio. Lembrou-se do problema. Na primeira gaveta um susto contornado com um sorriso amarelo. A segunda trouxe a mesma reação com mais impacto. Prosseguiu indagando se estava pronto. Consciência: “É agora ou nunca”. Ricardo: “Não tem daqui a pouco?” Despeja tudo friamente, arruma as meias, calças (emociona-se), camisas... Revisa os apreciados estudos na terceira. Era de Imperadores, Roma... Tenta refletir os ensinamentos dos filósofos, mas o clássico “só sei que nada sei”, sugeria (e explicava) seu estado de espírito atual. Sentia-se feliz. O método de organização, educação rígida que foi exposto tornava-se claro agora. O estranho é que nunca ter associado disciplina com liberdade. Quarta é última: doces lembranças, febris, sensoriais. Outro sorriso. Tem uma súbita vertigem, cai mas se levanta. O serviço estava pronto. Dá três passos em direção ao quarto e olha fixamente para o armário.

Sr. Tarântula

Saturday, March 11, 2006

VIAJE - presente do subjuntivo

– LON-DON – o garoto leu com certa dificuldade uma plaqueta. Estava em pé, olhando para cima, diante dos grandes relógios do saguão central do aeroporto.

Fixara por alguns segundos o olhar em cada um dos sete relógios e, mentalmente, ia lendo o nome de cada cidade ali correspondida. Prestava atenção aos ponteiros e às horas que eles marcavam, tentava imaginar como aquele montante de números em círculo, cobertos minuto sim, hora não, podiam informar com exatidão o tempo, assim como tentar entender o porquê de algumas cidades estarem com o mesmo horário e outras não.

Cada movimento do ponteiro mais fino, de cor diferente, era um bater de cílios: seu corpo estava tomado por estes giros. Um movimento rítmico e cadenciado. Outro movimento e alguém corria apressado. Outro movimento e as malas sobre rodas faziam-se passar grunhindo. Mais um movimento e um barulho de avião rompia o ar. Foi neste momento que o garoto teve a impressão de que os ponteiros adquiriram força e giravam como a turbina da aeronave que escutara há pouco. Estava hipnotizado. Seu coração estava batendo no mesmo compasso. Pôde, por um breve intervalo incalculável, talvez uma fração de milésimos, se desligar de seu mundo. Só não pôde mais porque a dor, que talvez vinha da nuca, o arrancou, trazendo-lhe de volta.

– Ande moleque! Vai ficar parado agora? Cadê o dinheiro? Já vendeu as balas?
O olhar pueril sobre os relógios foi aos poucos se embaçando e, conforme pendia a cabeça, um vulto ia tomando forma em primeiro plano. Era sua mãe. O garoto colocou a mão em um de seus bolsos da bermuda que vestia, o bolso que considerava sujo, e tirou algumas notas amassadas e encardidas, umas dobradas sobre as outras. Um agudo barulho de moedas batendo-se entre si foi perceptível também. Em duas tiradas de mão do bolso, entregou tudo o que conseguira a sua mãe, e esta contou nota por nota, moeda por moeda: – Ande!

Novamente a mulher virou um vulto enquanto o garoto baixava-se para pegar sua caixa de papelão com tubinhos de bala dentro. “Redondas que nem os relógios. Muitos relógios aqui dentro, em minhas mãos” pensou o garoto enquanto levantava-se e ia em direção à escada.

A escada situa-se ao lado direito do saguão e liga-se ao mezanino em forma espiralada. Vista de cima, a escada formaria um círculo perfeito. O que chamaria a atenção seria uma pequena cabeça com cabelos pretos contornando este círculo, onde a cada passo, esta cabeça ficaria maior a quem observasse. Enfim o garoto conquistara o último degrau e meneou seu corpo em busca de um comprador para suas balas, que agora já se eram relógios em miniatura.

No café ao canto um sujeito, aparentemente, não estava fazendo nada, muito diferente das outras pessoas que corriam, mexiam em computadores, falavam em aparelhos celulares. Apenas possuía em sua mesa uma xícara e uma espécie de pãozinho, que parecia não ter sido beliscado ainda. De onde o garoto estava, não dava para se enxergar tudo muito bem: apenas viu que o homem estava sentado de costas para os relógios, que iam ficando maiores a cada passo dado. Quando os relógios ficaram em seu tamanho máximo, o homem estava postado a sua frente.

– Uma por cinqüenta centavos. Três por um real – disse ao tranqüilo sujeito, sem olhar muito em seu rosto, mostrando-lhe a caixa com os tubos de balas.
– Duas, por favor – esperou um momento. Queria saber qual seria a reação daquele pequeno vendedor. Mas como o garoto não retrucava, parecia com o olhar perdido para a frente, prosseguiu, tentando ser simpático: – Não, não. Melhor três. Fica o mesmo preço, não é? – e sorriu para ele.
– Fica. Fica sim – pegou três pacotes de balas da caixa em suas mãos e os colocou sobre a mesa. Recebeu o dinheiro e o colocou no bolso sujo. Agora, mais perto do homem, pôde notar que a xícara continha café com leite e que o tal pãozinho era um pão de batata.

O homem percebeu uma certa inquietação naquele pequeno ser que se dispunha a sua frente. Já teve uma larga experiência com crianças. Sabia que o que faltava ao pequeno ser não era dinheiro, mas sim alguém que pudesse-lhe contar uma história. Uma história que o transformaria, que o fizesse viajar.
– Diga, meu rapaz, está tudo bem com você?
– Sim – disse o garoto notando que o relógio London estava quase centrado na cabeça daquele homem.
– O que tanto olha aí atrás de mim? – Já não podia deixar de perguntar isso.
– Os relógios. Marcam horas diferentes. Alguns iguais. Por que?
Sim, a palavra com entonação “por que?” era uma das mais ouvidas por este homem, e imaginou se teria algo intrínseco a ele, que faria um garoto desconhecido usar esta mesma expressão. Fez um sinal com a cabeça para que o garoto se sentasse. E o garoto sentou.
– Cada relógio marca as horas das principais cidades. As principais cidades são aquelas para onde as pessoas viajam mais. Cada cidade, dependendo do lugar onde está, tem um horário diferente daqui. Os relógios servem para que as pessoas possam acertar seus próprios ponteiros, e desembarcar na cidade com seus relógios arrumados.
Isto não fazia sentido ao garoto. Era difícil imaginar que ao mesmo tempo em que estavam ali, conversando, haveria uma outra cidade com hora diferente. O homem percebeu esta falta de compreensão do garoto.
– Imagine que este pão de batata seja o nosso planeta. Tão redondinho quanto! – o homem estava se divertindo ao notar que o garoto estava assustado – E imagine agora que eu sou o Sol.
O garoto olhou para o homem e conseguiu imaginar ele sendo o Sol. Com uma luz tão ofuscante que seu brilho tapava os relógios atrás.
– Eu sou o Sol. Este pãozinho é a Terra. Minha luz só bate nesta parte que está virada pra mim. A parte que está virada pra você não recebe minha luz, está no escuro – começou a girar em sentido horário o pratinho que acomodava o pãozinho – Note que, conforme a Terra vai girando, a parte que estava no escuro vai aos poucos recebendo a luz do Sol, e a parte que estava voltada para o Sol, vai indo para o escuro. Assim, temos as noites e os dias!
Olhos atentos aquele pão. Tanto os do homem quanto os do garoto.
– Veja: se esta parte que está voltada pra mim é o Brasil, logo esta parte que está voltada pra você é o Japão.

O garoto já ouvira em algum lugar que o Japão era do lado contrário ao do Brasil. Que as pessoas andavam de ponta cabeça lá.

– E se aqui no Brasil é meio-dia, no Japão será meia-noite – começou a apontar para diferentes partes do pão de batata – E, por isso, cada cidade em determinado local, tem uma hora diferente, mas as que estão próximas, na mesma faixa, possuem a mesma hora!

O garoto começou a sentir seu coração batendo mais forte. A história que acabara de ouvir era simplesmente fantástica. Esconder seu espanto e admiração se tornara impossível, o que encheu de alegria o homem.

– Pois bem meu garoto! Você deve estar com fome. Vou repartir este planeta com você – e serrou o pão de batata com uma faca prateada brilhante, que conforme ia cortando, ia perdendo seu brilho com as manchas de requeijão que desprendia do salgado. Um pouco de requeijão vazou pelo prato. O homem pensou que se o garoto fosse um pouco mais velho, seria a oportunidade ideal para explicá-lo o que era o magma, e como funcionava os vulcões. Poderia ainda juntar as duas partes novamente e dizer-lhe o que eram as placas tectônicas. “Melhor não. Muita informação por hoje”.
Com um guardanapo embrulhou o pedaço do pão de batata e o entregou ao garoto: – Aqui está sua parte! O Brasil!
“Qual seria o peso do Brasil?” – lentamente o garoto estendeu as duas mãos. O embrulhou ainda mais e segurou firmemente:
– Obrigado.
Queria ter podido falar mais. Agradecer mais. Mas sabia que não conseguiria. Sempre fora travado com as próprias palavras.
– Boa sorte! – O sorriso do homem gentil mostrou ao garoto que ele não precisava se culpar por não ter dito mais nada.

Quando deu por si, o garoto já estava descendo a escada em espiral, com os relógios do saguão passando por sua vista em borrões de velocidade. Ao pé da escada freou.Olhou para seu Brasil e não sentiu vontade de comê-lo. Não era a hora ainda. Colocou-o em seu bolso que considerava limpo, oposto ao bolso considerado sujo.
“Se aqui no Brasil é meio-dia, no Japão será meia-noite” – ficou com essa frase repetindo em sua cabeça enquanto vendia balas-relógios a outros compradores.
Pensava na Terra girando: Claro e escuro. Noite e dia. Quem sabe alguns anos mais a frente este garoto soubesse que, no século VI antes de Cristo, Parmênides já pensava nestas dualidades. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser.
O garoto notou que já estava começando a anoitecer. E as pessoas continuavam apressadas: “Elas estão apressadas porque estão fugindo da noite. É por isso que elas viajam. Saem de um lugar que está anoitecendo para irem a um outro, onde o dia está nascendo. As pessoas que viajam têm medo do escuro. Vivem viajando para estarem sempre com a luz do Sol por perto” – o garoto sentiu-se feliz por mais esta descoberta.

Era hora de ir embora. Viu os relógios grandes do saguão principal refletidos nas grandes portas de vidro do aeroporto. Conforme as portas se dividiam e iam abrindo para os lados, os mesmos relógios iam sumindo. E o ar invadiu o garoto quando ele saiu. Os raios partintes do Sol que anunciavam a chegada da escuridão o iluminou parcialmente. “Meu rosto está iluminado. Minhas costas estão escuras” – lembrou-se imediatamente do seu pão de batata. Desembrulhou-o com cuidado, pois muito do requeijão estava grudado no guardanapo. “A hora é essa”. Em três mordidas o Brasil ficou no escuro.




O Caranguejeira

Saturday, March 04, 2006

Peças do Tempo


Mais uma vez toca o despertador, justamente quando Ricardo está no seu melhor sono.
São 5:30 da manhã e ele tem de levantar para mais um dia árduo de trabalho.

- Eu daria tudo para ter mais alguns minutos dormindo. – reclama com a voz cansada.
- Então volte a dormir! – reponde um homem de terno branco sentado na parte interior de sua cama.
- Meu Deus! – diz Ricardo apavorado e levantando de repente. – Quem diabos é você? Como entrou aqui?
- Calma, eu sou Deus, Alá, Buda... como quiser! Me chame apenas de Amigo!

Ricardo pode reparar que o homem misterioso carregava em sua mão um relógio com uma pulseira dourada muito bonita.

- Deus do céu, saia da minha casa!
- Volte para sua cama. – disse o homem. Ricardo quase como manipulado feito uma marionete voltou a sua cama e ficou observando o sujeito.
- Eu apenas ouvi o seu pedido e estou aqui para ajudá-lo. Você não disse que quer dormir? Pois bem, sei muito do seu esforço diário para ganhar dinheiro e viver uma vida, vamos dizer assim, não tão fantástica. Por isso resolvi te dar uma bonificação – e estendendo a mão mostrou-lhe o relógio.
- Me poupe... relógio não é bem a juda que eu quero!
- Hahahaha com certeza não, se fosse um relógio comum, mas esse relógio meu caro, é um relógio mágico, ele tem o poder de parar o tempo do universo enquanto seu corpo desfruta dessa pausa.
- Como é que é?
- Veja bem, caso você aperte esse botão, você será capaz de parar as 5:30 da manhã pelo tempo que seu corpo pedir de sono, e ao soltá-lo – ainda será 5:30 capicce?
- Deus do céu, que maravilha – e o que faz você Senhor, querer me dar essa benção?
- Já lhe disse, sei do seu esforço como pessoa.

E assim o homem desapareceu deixando o relógio sobre a cabeceira de Ricardo.

Ricardo estava um tanto quando incomodado em ativar o relógio, não sabia se estava ficando louco ou se aquilo era realmente verdade, e por duas semanas conteve a tentação de parar o tempo.
Mas toda essa tentação pareceu vir de uma só vez, e Ricardo interrompia o tempo todos os dias para ter uma noite de sono mais proveitosa – vamos dizer assim 12 horas de sono a mais...

No serviço todos comentávam sobre a disposição com a qual Ricardo ia trabalhar – sempre bem descansado e pronto a iniciar o batente. O que rendeu a ele promoções salariais e reconhecimento da chefia.
Todas as noites Ricardo agradecia a Deus por ter lhe presenteado com algo tão maravilhoso.
Durante anos Ricardo desfrutou de seu relógio, mas foi no ano de 1997 – agora com 49 anos, que Ricardo teve uma notícia ruim. As pessoas já não comentávam mais a sua disposição, mas sim como um homem de 49 anos estava tão debilitado, parecendo ter por volta de 70 anos e apresentando problemas de saúde que são comuns em pessoas da terceira idade.

Na noite de seu aniversário de 50 anos – Ricardo teve uma visita não tão esperada.
O homem que lhe apareceu há 25 anos e trajava um terno branco estava lá – não havia envelhecido 1 ano sequer, vestia agora trajes pretos e trazia em seu rosto um sorriso malígno.

- Feliz aniversário Ricardo.
- Senhor, o que está acontecendo comigo?
- Você conhece a palavra ganância? Pois então, esse é o preço!
- Mas nunca fiz mal a ninguém, apenas parei o tempo para ter mais tempo de sono em minha vida.
- Bem, pessoas perderam oportunidade no emprego por isso, e você deixou a preguiça, que é um pecado capital, tomar conta de seu corpo por 25 anos. Não sou muito bom em matemática, mas vamos somar todas essas horas durante 25 anos – hmmm acredito que você envelheceu sem perceber.
- E por que o Senhor fez isso comigo?
- Eu? Não seja tolo! Eu não fiz nada, foi você quem quis bancar Deus parando o tempo... por acaso isso lhe parece algo interessante? Bancar o poderoso ?

Ricardo percebeu pelo tom irônico que jamais esteve diante de Deus e aquele homem não tinha relação nenhuma com o criador.

- Ricardo, você sempre foi uma pessoa boa, nunca fez mal a ninguém. E devido a isso tive que iludí-lo com algo que o faria sentir-se bem e poderoso... Não me interprete mal, mas são as pessoas boas que eu tenho que fisgar para o meu reino, pois as pessoas ruins, ahh.... essas já sabem que seu caminho será as trevas, mas não se preocupe, eu seleciono muito bem meus convidados.

Ricardo havia se dado conta...

- Só mais uma coisa – disse o homem de preto – Lá você vai trabalhar muito, e dormir pouco, mas eu jamais irei mostrar reconhecimento algum.

E ao desaparecer como fez há 20 anos, Ricardo foi subtamente derrubado por um ataque cardíaco que lhe custou a vida. Vida que ele nunca teve.

O Aranha Marrom!