Friday, June 09, 2006

Eclipse Lunar


A luz foi ganhando à força o quarto escuro à medida em que a porta se abria. O olhar de uma menina tremeluziu conforme o feixe luminoso por seu rosto alvo ameaçava. Fungou assustada e recolheu-se mais. Inútil: o corpo aproximou-se. Debateu com as pernas e tentou gritar. A resposta veio em uma bofetada que lhe tirou sangue do nariz. A menina com feridas nada cicatrizadas estava entregue. Novamente a dor era sentida por dentro. Dor sobre dor. Profunda.

Caída luminescente, acompanhou a saída da sombra, resquício de um corpo. Vestidinho de florzinha agora rasgado, sentia-no molhado e pegajoso. Não mais lhe pertencia. Nojo. Ouviu uma porta bater. Penumbra.

Arrastou-se para junto da parede fria. Sabia que o contato a esquentaria. Nariz arenoso, grosso. Capaz de sentir cheiro, sentiria o bafo nojento em si. Ânsia. Fosse possível, arrancaria a sua pele, não mais sua como o vestido.

Lágrimas secas no silêncio. Tinha pena de si: ninguém ao menos a escutara. Encostou o ouvido na parede e foi se embalando com os sussurros que vinham não imaginava de onde. Talvez água correndo pelos encanamentos, energia correndo pelos fios. Talvez um meio de comunicação com o outro lado.
Teve a impressão de ouvir a sua mãe. Não ouviu o que dizia mas sabia o que era: “Depois das tribulações o sol se converterá em trevas, a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor”.
Queria que o dia viesse logo. Pancadas na porta. Face oculta. Gritos abafados que ninguém jamais ouviu. Umbra.

O Caranguejeira

Sunday, June 04, 2006

Sofia



Saiu tudo como planejado. Tão certo ao ponto de Sofia não acreditar. Tinha arquitetado sua tramóia nem sempre certa do êxito. Primeiro: os envolvidos não eram de fácil enrolação. Segundo: não sabiam as conseqüências daquilo tudo. Apenas se entregou a seus devaneios que não eram poucos. Sofia dorme e imagina: cavalos voadores contemplando a liberdade. Eles percorrem prédios e dão saltos rumo ao desconhecido. Sofia tinha objetivos. Casar-se, ter filhos, ser feliz e uma casa de madeira. Sorri desesperadamente. Tinha conseguido, conseguido... sentir súbita tristeza; agonia crescente no peito e ver as pálpebras lacrimejarem tristemente; ouvir acordes secos de um instrumento qualquer e gira constantemente ao redor da melodia etérea. Está dividida e deprimida. Sofia têm objetivos. Um único e indesejável. O ar lhe pesa, a visão suprime-lhe o belo. Olhares rápidos com idéia fixa e súbita. Sofia tem um plano. Sofia sorri, mas chora. Sofia incrédula acredita. Sofia tem passos certeiros desritmados. Sofia sente a brisa gélida lhe queimar os pulmões. Sofia quer ir além do esconderijo subconsciente. Sofia cai. Sofia morre. Ao seu redor, os envolvidos sem reação, choram.

Sr. Tarântula