Sunday, April 23, 2006

S U M I D O U R O

– Estão bem acomodados? – a voz era graciosa e sorridente, impossível imaginar falar algo que pudesse tirar-lhe aquele sorriso: dois irmãos assentiram e sorriram, comportando-se exatamente como prescrevera seus pais alguns minutos antes de entrarem na lanchonete – A festinha começará daqui a pouco! – e, com estes dizeres, a mãe da aniversariante retirou-se para caminhar a uma outra mesa e repetir as mesmas duas frases e dar os dois sorrisos.

Os dois irmãos estavam sentados frente-a-frente, não muito perto, mas também não muito longe dos demais convidados; estavam a uma distância considerável para perderem a inibição inicial e aos poucos irem se familiarizando com a sensação de liberdade, nesta que seria a primeira festinha de aniversário que participariam sem a presença dos pais, que os estavam esperando do lado de fora, no estacionamento da grande lanchonete.

Sem palavras sendo trocadas, apenas com os sorrisos ansiosos e os olhos brilhantes, procuraram concentrar-se em algo para o tempo passar mais rápido e, assim, a festa começar logo. Foi possível observar que as janelas de vidro ao lado das mesas eram imensas, fazendo com que muita luz adentrasse, fazendo um bonito prisma no teto ao transpor os coloridos balões pendurados com o número oito inscrito, e observaram também que a toalhinha de papel onde serviriam os hambúrgueres com batata-frita era decorada com motivos de fundo do mar, do mesmo modo como a parede ao fundo. Estando cercado por vidros, bolas acima de sua cabeça que se moviam conforme o vento, “ou seria água?” e dentro de um espaço delimitado com desenhos de peixes e tubarões, o irmão mais velho pensou estar em um aquário. Riu para si deste pensamento. Olhou para o irmão mais novo à sua frente e nada disse. Olhando-o tão menor que ele, apesar de terem idades relativamente próximas, pensava ser ele um herói, já que o acompanhava na festa dada por uma menina que nem em sua sala estava. “No lugar dele eu nem viria”.

O irmão mais velho nutria uma paixão infantil pela aniversariante já fazia algum tempo. Na sala de aula era impossível não demonstrar este afeto todo, mas para seu azar, nunca teve uma demonstração que retornasse. “Será que ela me acha feio? Gordo?”. Não queria pensar nisto naquele momento, afinal, se ela a convidara para seu aniversário, dentre poucos da turma, alguma coisa devia ela sentir; e algo dentro dele dizia que o dia seria diferente. Estava se sentindo bonito, bem arrumado e nem tão gordo assim, e além de tudo pedira a mãe para que comprasse um presente bem bonito. Seria impossível ela não gostar! Tratava-se de um lindo casal de bonecos chineses trabalhados em um sabonete perfumado. Mal podia esperar para ver a reação dela quando abrisse o seu presente!

Todos ficaram em pé. Fora anunciado a chegada da aniversariante. O coração palpitou. Os dois irmãos, que a esta altura já estavam mais enturmados com um ou outro coleguinha que havia chegado, viraram-se e viram a menina mais linda, que parecia estar deslizando sobre águas: vestidinho rosa estilo bailarina, cabelos lisos e pretos em contraste com a fita vermelha, que delimitava o rosto de anjo. Todos aplaudiram e ela sorria. “Puxou a mãe”.

– Você vai me dar um brinquedo de presente? – ela foi direto, ansiosa, ao assunto.
– É mais legal que brinquedo! Abra! – colega de sala pousou a caixa com cuidado nas mãos lindas da aniversariante enquanto seu irmão mais novo observava, e ela começou a desenlaçar o embrulho. Pensou naqueles chinesinhos perfumados feitos artesanalmente. “Abra logo! Você vai gostar”. E ela abriu. E a caixa foi depositada em um canto, de modo que o casalzinho de chineses ficasse olhando para o teto. Quietos.
– Obrigada. Muito lindo – e saiu esperançosa em ganhar brinquedo. Ganhou um mais à frente de um garoto loirinho. “Parece que ela não gostou muito do que eu dei. Mas quando chegar em casa ela vai colocá-los na estante de seu quarto, e pensará sempre em mim quando olhar pra eles.” O irmão mais novo disse que estava com fome. O mais velho também estava, mas nada disse; apenas olhava a bailarina sorrindo para o príncipe loirinho e bonitinho.

– Crianças! Crianças! – a voz graciosa e sorridente da mãe se mantinha – Já estão trazendo o lanche! Enquanto esperamos, vamos brincar um pouco!

Era o momento mais temido pelo mais velho. Estava rezando para que não houvesse brincadeiras: sempre fora desajeitado por causa de seu tamanho. Já fora alvo de inúmeras gozações e já perdeu a conta de quantas vezes chorara por causa disto. “Hoje será diferente”.

Uma roda de crianças se formou ao redor da mulher. Alguns parentes observavam de longe. Outros conversavam. A aniversariante sorria. “Puxou a mãe”. O irmão convidado sorriu também, ao mesmo tempo em que se afastava um pouco da roda puxando o irmão mais novo. “Não quero ser o primeiro”.

– A brincadeira é o seguinte: cada um vem aqui no meio e imita um animal. E quem assiste terá de descobrir que animal está sendo imitado! – sorria. “Que animal eu imito? Será que devo pular como um coelho?”
– Tia! Ele ali pode ser o primeiro! Já está imitando um elefante! – O loirinho apontou para o garoto que há pouco tentara se esconder, imaginando se imitaria um coelho ou não. Foi inútil. Um caminho se abriu, e ele estava exposto. Expuseram-no.
A aniversariante, rodopiando pelo caminho aberto, arreganhou os dentes e soltou uma gargalhada estrambótica. Quisera que ela já estivesse imitando o próximo animal, assim adivinharia ser um cavalo. Mas era dele que ria. Ou melhor, era dele que riam: ao cavalo mestre, juntou-se uma cavalaria.

Viu as grandes vidraças serem estilhaçadas com a força das águas que vinha de fora. Sentiu o frio molhado subir-lhe. Seu corpo, preso ao chão, estava agora envolto por água. Tentou se mexer, mas estava pesado. Qualquer movimento tornara-se difícil. Sufocava. Tentou levantar a cabeça, procurar pela voz sorridente e graciosa entre os risos. Rios de risos. Queria ajuda. Aonde? Ajuda! Viu um peixe saltar da parede ao fundo. Mergulhou. Cresceu. Devorou o príncipe e a bailarina, que gargalhavam um para o outro. “Mate-os”. E o peixe debatia as nadadeiras, fazendo ondas grandes. “Mate a mim!”. E seu irmão mais novo deu-lhe a mão para segurar: estou aqui. O turbilhão cessou. Calmaria. O garoto loirinho foi cuspido seguido da menina de fita vermelha. Não gargalhavam mais. Sentiu a água escorrer por um buraco abaixo de seus pés. O peixe diminuiu de tamanho. Debateu-se agonizante três vezes. Parou. As águas que saíram pelas vidraças estilhaçadas trouxeram os vidros novamente. A água escoou totalmente. Silêncio. Conseguiu levantar a cabeça. A voz graciosa e sorridente puxou o braço da filha. O irmão mais novo puxou o mais velho para um canto. Não queria brincar daquilo. Os outros continuaram.

Vieram macacos, galos, tigres e leões.

– Você vem comigo?
– Vou.

Antes de perguntar isso ao irmão mais novo, e obter sua resposta fiel, o garoto pensou no que acontecera. “Hoje não seria diferente”. Não sentia mais vontade de ficar naquele lugar. Ponderou o que seria melhor: ficaria e teria que agüentar rebaixado a todos os olhares a que foi submetido, ou deveria fugir da festa e ir de encontro aos pais no estacionamento? Se ficasse seria corajoso, mas fraco por não ter enfrentado os pais. Se fugisse seria covarde, mas forte por ter tomado uma decisão. Devia escolher entre coragem e fraqueza e covardia e força.

– Vamos – disse e olhou de relance para uma “foca”. “Este era fácil de adivinhar”. Estavam todos concentrados na brincadeira. Logo viria o lanche. “Meu irmão come em casa. Eu também”.

Os dois irmãos, sem que ninguém os percebesse, passaram por entre vasos que delimitavam o salão reservado para a festa. Correram. Os chinesinhos ficaram, enterrados, em meio a restos de papel de presente amassados.

E este foi o primeiro suicídio do irmão mais velho.

O Caranguejeira

Sunday, April 09, 2006

O Vampiro

Eu sou um vampiro

“Eu adoro meu ego e adoro minha vida, pois sou o único deus que existe”.

Fui rejeitado no céu e no inferno, condenado a viver nas trevas terrestres, mendigando nas noites frias por um pouco de sangue e tendo que me consolar por passar todas as tardes e manhãs da minha existência dentro de uma urna.

Poucos são os que acreditam que eu existo, pobres humanos, não sabem distinguir o que realmente existe no mundo real, têm medo de sua própria condição e desconhecem o seu próprio destino.

Tenho 366 anos, este caso aconteceu há algum tempo, você pode não acreditar, mas não é isso o que é importante, aliás, um conto pode ser narrado por todo tipo de narrador; um bom ou mal, um mentiroso ou um verdadeiro, um ser real ou um sobrenatural, o que é mais importante é ouvi-lo até o final com muita atenção, você sempre aprenderá algo com ele.

Era uma noite parisiense, tomei um ônibus na linha S em plena meia-noite, apesar do horário, a movimentação de pessoas fazia com o ritmo lembrasse o rush do meio-dia. Era nesse cenário que eu precisava encontrar minha vítima, fiquei observado o movimento até que mirei um homem de uns 25 anos, usava um chapéu mole rodeado por um cordão em vez de fita, um pescoço enorme e apetitoso. Sim, ele seria minha refeição, era interessante como seus olhos não paravam de penetrar nos meus, pensei que ele desconfiasse de mim, mas hesitei, sabia que isso não era possível.

Aqueles olhos claros queriam me dizer alguma coisa, talvez eles implorassem pela vida, talvez fosse um chamado, ou um olhar soberbo, qualquer que fosse a charada para aquele enigma eu estava certo de minhas intenções, porém não conseguia para de compenetrar naqueles olhos, então pela primeira vez desde que me tornei imortal passei a refletir no que fazia.

Reflexos de uma vida sem importância atravessavam minha mente tão fortes como lanças atiradas, podia ver, agora, naqueles olhos, um acaso de tê-lo encontrado nesse momento único de consciência em minha vida sem valor e um destino que eu não sabia decifrar, ambigüidades que levariam a loucura. Como seria rotineira aquela vida, mais um entre bilhões, passos que não voltam e que caminham em direção a eterna sepultura, foi um momento de pena. Deixe-o partir sem tirar sua vida.

Duas horas mais tarde o reencontro na Cour de Rome, na frente da Gare Saint-Lazare com o mesmo chapéu e com o mesmo olhar compenetrante, sem estar tomado por aquele espírito de piedade o matei e me alimentei de seu sangue. Nunca mais veria aqueles claros compenetrantes, mas a partir daquele momento pude perceber o quanto a miséria e a fragilidade humana faziam de mim um ser potente.

Marido da Viúva