Friday, June 09, 2006

Eclipse Lunar


A luz foi ganhando à força o quarto escuro à medida em que a porta se abria. O olhar de uma menina tremeluziu conforme o feixe luminoso por seu rosto alvo ameaçava. Fungou assustada e recolheu-se mais. Inútil: o corpo aproximou-se. Debateu com as pernas e tentou gritar. A resposta veio em uma bofetada que lhe tirou sangue do nariz. A menina com feridas nada cicatrizadas estava entregue. Novamente a dor era sentida por dentro. Dor sobre dor. Profunda.

Caída luminescente, acompanhou a saída da sombra, resquício de um corpo. Vestidinho de florzinha agora rasgado, sentia-no molhado e pegajoso. Não mais lhe pertencia. Nojo. Ouviu uma porta bater. Penumbra.

Arrastou-se para junto da parede fria. Sabia que o contato a esquentaria. Nariz arenoso, grosso. Capaz de sentir cheiro, sentiria o bafo nojento em si. Ânsia. Fosse possível, arrancaria a sua pele, não mais sua como o vestido.

Lágrimas secas no silêncio. Tinha pena de si: ninguém ao menos a escutara. Encostou o ouvido na parede e foi se embalando com os sussurros que vinham não imaginava de onde. Talvez água correndo pelos encanamentos, energia correndo pelos fios. Talvez um meio de comunicação com o outro lado.
Teve a impressão de ouvir a sua mãe. Não ouviu o que dizia mas sabia o que era: “Depois das tribulações o sol se converterá em trevas, a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor”.
Queria que o dia viesse logo. Pancadas na porta. Face oculta. Gritos abafados que ninguém jamais ouviu. Umbra.

O Caranguejeira

Sunday, June 04, 2006

Sofia



Saiu tudo como planejado. Tão certo ao ponto de Sofia não acreditar. Tinha arquitetado sua tramóia nem sempre certa do êxito. Primeiro: os envolvidos não eram de fácil enrolação. Segundo: não sabiam as conseqüências daquilo tudo. Apenas se entregou a seus devaneios que não eram poucos. Sofia dorme e imagina: cavalos voadores contemplando a liberdade. Eles percorrem prédios e dão saltos rumo ao desconhecido. Sofia tinha objetivos. Casar-se, ter filhos, ser feliz e uma casa de madeira. Sorri desesperadamente. Tinha conseguido, conseguido... sentir súbita tristeza; agonia crescente no peito e ver as pálpebras lacrimejarem tristemente; ouvir acordes secos de um instrumento qualquer e gira constantemente ao redor da melodia etérea. Está dividida e deprimida. Sofia têm objetivos. Um único e indesejável. O ar lhe pesa, a visão suprime-lhe o belo. Olhares rápidos com idéia fixa e súbita. Sofia tem um plano. Sofia sorri, mas chora. Sofia incrédula acredita. Sofia tem passos certeiros desritmados. Sofia sente a brisa gélida lhe queimar os pulmões. Sofia quer ir além do esconderijo subconsciente. Sofia cai. Sofia morre. Ao seu redor, os envolvidos sem reação, choram.

Sr. Tarântula

Friday, May 12, 2006

Degraus da Vida

Sofia sempre foi aquele tipo de pessoa que ao invés de aprender passo a passo, como deve ser, gostava sempre de começar pelo fim – justamente pelo mais difícil.
Aos 7 anos de idade já queria fazer contas de alguém da terceira série e coisas do tipo. Enquanto criança tudo parecia bonitinho, mas ao entrar na aborrecência as coisas começaram a ficar bem feias.

Ela não queria dar ouvidos aos pais ou avós, sempre agia com um ar de superioridade e o pior de tudo, nunca aprendia nada – visto que sempre queria começar do mais difícil (do fim) e sendo assim desistia.

“A vida é como uma escada” dizia seu avô “temos de subir degrau por degrau, e só avançarmos quando estivermos prontos” – claro que para Sofia isso era apenas uma baboseira criada pelo velho que ela via como gagá e não como sábio.

Devido a sua superioridade (falsa), Sofia começou a perder os amigos, pois quando podia aprender com os mais humildes, simplesmente os desprezava, sem nem imaginar que talvez pudesse aprender algo que poderia ser útil no futuro.

Os anos se passaram e Sofia sofria com a falta de pessoas ao seu lado – as que lhe deram chance estavam para ela degraus a baixo, e ela não se sujeitava a acompanhá-los, os que estavam acima sequer se davam conta de que ela existia e nessa escadaria imensa Sofia caminhava sozinha rumo ao topo.

Mas os anos começaram a tracejar sua beleza e Sofia começou a ficar cansada.
Subtamente estava no limite – pois não tinha mais forças para subir a escada. Talvez se ela tivesse dado ouvidos aos seus pais e avós, agora falecidos, talvez pudesse seguir seu caminho.
De qualquer forma ela tinha a opção de voltar no primeiro degrau e começar do zero – mas agora o risco era grande. Pois, debilitada, ela poderia cair, ou pior, poderia aprender tudo do zero, mas não ter tempo vital suficiente para atingir o topo.

O Aranha Marrom

Sunday, April 23, 2006

S U M I D O U R O

– Estão bem acomodados? – a voz era graciosa e sorridente, impossível imaginar falar algo que pudesse tirar-lhe aquele sorriso: dois irmãos assentiram e sorriram, comportando-se exatamente como prescrevera seus pais alguns minutos antes de entrarem na lanchonete – A festinha começará daqui a pouco! – e, com estes dizeres, a mãe da aniversariante retirou-se para caminhar a uma outra mesa e repetir as mesmas duas frases e dar os dois sorrisos.

Os dois irmãos estavam sentados frente-a-frente, não muito perto, mas também não muito longe dos demais convidados; estavam a uma distância considerável para perderem a inibição inicial e aos poucos irem se familiarizando com a sensação de liberdade, nesta que seria a primeira festinha de aniversário que participariam sem a presença dos pais, que os estavam esperando do lado de fora, no estacionamento da grande lanchonete.

Sem palavras sendo trocadas, apenas com os sorrisos ansiosos e os olhos brilhantes, procuraram concentrar-se em algo para o tempo passar mais rápido e, assim, a festa começar logo. Foi possível observar que as janelas de vidro ao lado das mesas eram imensas, fazendo com que muita luz adentrasse, fazendo um bonito prisma no teto ao transpor os coloridos balões pendurados com o número oito inscrito, e observaram também que a toalhinha de papel onde serviriam os hambúrgueres com batata-frita era decorada com motivos de fundo do mar, do mesmo modo como a parede ao fundo. Estando cercado por vidros, bolas acima de sua cabeça que se moviam conforme o vento, “ou seria água?” e dentro de um espaço delimitado com desenhos de peixes e tubarões, o irmão mais velho pensou estar em um aquário. Riu para si deste pensamento. Olhou para o irmão mais novo à sua frente e nada disse. Olhando-o tão menor que ele, apesar de terem idades relativamente próximas, pensava ser ele um herói, já que o acompanhava na festa dada por uma menina que nem em sua sala estava. “No lugar dele eu nem viria”.

O irmão mais velho nutria uma paixão infantil pela aniversariante já fazia algum tempo. Na sala de aula era impossível não demonstrar este afeto todo, mas para seu azar, nunca teve uma demonstração que retornasse. “Será que ela me acha feio? Gordo?”. Não queria pensar nisto naquele momento, afinal, se ela a convidara para seu aniversário, dentre poucos da turma, alguma coisa devia ela sentir; e algo dentro dele dizia que o dia seria diferente. Estava se sentindo bonito, bem arrumado e nem tão gordo assim, e além de tudo pedira a mãe para que comprasse um presente bem bonito. Seria impossível ela não gostar! Tratava-se de um lindo casal de bonecos chineses trabalhados em um sabonete perfumado. Mal podia esperar para ver a reação dela quando abrisse o seu presente!

Todos ficaram em pé. Fora anunciado a chegada da aniversariante. O coração palpitou. Os dois irmãos, que a esta altura já estavam mais enturmados com um ou outro coleguinha que havia chegado, viraram-se e viram a menina mais linda, que parecia estar deslizando sobre águas: vestidinho rosa estilo bailarina, cabelos lisos e pretos em contraste com a fita vermelha, que delimitava o rosto de anjo. Todos aplaudiram e ela sorria. “Puxou a mãe”.

– Você vai me dar um brinquedo de presente? – ela foi direto, ansiosa, ao assunto.
– É mais legal que brinquedo! Abra! – colega de sala pousou a caixa com cuidado nas mãos lindas da aniversariante enquanto seu irmão mais novo observava, e ela começou a desenlaçar o embrulho. Pensou naqueles chinesinhos perfumados feitos artesanalmente. “Abra logo! Você vai gostar”. E ela abriu. E a caixa foi depositada em um canto, de modo que o casalzinho de chineses ficasse olhando para o teto. Quietos.
– Obrigada. Muito lindo – e saiu esperançosa em ganhar brinquedo. Ganhou um mais à frente de um garoto loirinho. “Parece que ela não gostou muito do que eu dei. Mas quando chegar em casa ela vai colocá-los na estante de seu quarto, e pensará sempre em mim quando olhar pra eles.” O irmão mais novo disse que estava com fome. O mais velho também estava, mas nada disse; apenas olhava a bailarina sorrindo para o príncipe loirinho e bonitinho.

– Crianças! Crianças! – a voz graciosa e sorridente da mãe se mantinha – Já estão trazendo o lanche! Enquanto esperamos, vamos brincar um pouco!

Era o momento mais temido pelo mais velho. Estava rezando para que não houvesse brincadeiras: sempre fora desajeitado por causa de seu tamanho. Já fora alvo de inúmeras gozações e já perdeu a conta de quantas vezes chorara por causa disto. “Hoje será diferente”.

Uma roda de crianças se formou ao redor da mulher. Alguns parentes observavam de longe. Outros conversavam. A aniversariante sorria. “Puxou a mãe”. O irmão convidado sorriu também, ao mesmo tempo em que se afastava um pouco da roda puxando o irmão mais novo. “Não quero ser o primeiro”.

– A brincadeira é o seguinte: cada um vem aqui no meio e imita um animal. E quem assiste terá de descobrir que animal está sendo imitado! – sorria. “Que animal eu imito? Será que devo pular como um coelho?”
– Tia! Ele ali pode ser o primeiro! Já está imitando um elefante! – O loirinho apontou para o garoto que há pouco tentara se esconder, imaginando se imitaria um coelho ou não. Foi inútil. Um caminho se abriu, e ele estava exposto. Expuseram-no.
A aniversariante, rodopiando pelo caminho aberto, arreganhou os dentes e soltou uma gargalhada estrambótica. Quisera que ela já estivesse imitando o próximo animal, assim adivinharia ser um cavalo. Mas era dele que ria. Ou melhor, era dele que riam: ao cavalo mestre, juntou-se uma cavalaria.

Viu as grandes vidraças serem estilhaçadas com a força das águas que vinha de fora. Sentiu o frio molhado subir-lhe. Seu corpo, preso ao chão, estava agora envolto por água. Tentou se mexer, mas estava pesado. Qualquer movimento tornara-se difícil. Sufocava. Tentou levantar a cabeça, procurar pela voz sorridente e graciosa entre os risos. Rios de risos. Queria ajuda. Aonde? Ajuda! Viu um peixe saltar da parede ao fundo. Mergulhou. Cresceu. Devorou o príncipe e a bailarina, que gargalhavam um para o outro. “Mate-os”. E o peixe debatia as nadadeiras, fazendo ondas grandes. “Mate a mim!”. E seu irmão mais novo deu-lhe a mão para segurar: estou aqui. O turbilhão cessou. Calmaria. O garoto loirinho foi cuspido seguido da menina de fita vermelha. Não gargalhavam mais. Sentiu a água escorrer por um buraco abaixo de seus pés. O peixe diminuiu de tamanho. Debateu-se agonizante três vezes. Parou. As águas que saíram pelas vidraças estilhaçadas trouxeram os vidros novamente. A água escoou totalmente. Silêncio. Conseguiu levantar a cabeça. A voz graciosa e sorridente puxou o braço da filha. O irmão mais novo puxou o mais velho para um canto. Não queria brincar daquilo. Os outros continuaram.

Vieram macacos, galos, tigres e leões.

– Você vem comigo?
– Vou.

Antes de perguntar isso ao irmão mais novo, e obter sua resposta fiel, o garoto pensou no que acontecera. “Hoje não seria diferente”. Não sentia mais vontade de ficar naquele lugar. Ponderou o que seria melhor: ficaria e teria que agüentar rebaixado a todos os olhares a que foi submetido, ou deveria fugir da festa e ir de encontro aos pais no estacionamento? Se ficasse seria corajoso, mas fraco por não ter enfrentado os pais. Se fugisse seria covarde, mas forte por ter tomado uma decisão. Devia escolher entre coragem e fraqueza e covardia e força.

– Vamos – disse e olhou de relance para uma “foca”. “Este era fácil de adivinhar”. Estavam todos concentrados na brincadeira. Logo viria o lanche. “Meu irmão come em casa. Eu também”.

Os dois irmãos, sem que ninguém os percebesse, passaram por entre vasos que delimitavam o salão reservado para a festa. Correram. Os chinesinhos ficaram, enterrados, em meio a restos de papel de presente amassados.

E este foi o primeiro suicídio do irmão mais velho.

O Caranguejeira

Sunday, April 09, 2006

O Vampiro

Eu sou um vampiro

“Eu adoro meu ego e adoro minha vida, pois sou o único deus que existe”.

Fui rejeitado no céu e no inferno, condenado a viver nas trevas terrestres, mendigando nas noites frias por um pouco de sangue e tendo que me consolar por passar todas as tardes e manhãs da minha existência dentro de uma urna.

Poucos são os que acreditam que eu existo, pobres humanos, não sabem distinguir o que realmente existe no mundo real, têm medo de sua própria condição e desconhecem o seu próprio destino.

Tenho 366 anos, este caso aconteceu há algum tempo, você pode não acreditar, mas não é isso o que é importante, aliás, um conto pode ser narrado por todo tipo de narrador; um bom ou mal, um mentiroso ou um verdadeiro, um ser real ou um sobrenatural, o que é mais importante é ouvi-lo até o final com muita atenção, você sempre aprenderá algo com ele.

Era uma noite parisiense, tomei um ônibus na linha S em plena meia-noite, apesar do horário, a movimentação de pessoas fazia com o ritmo lembrasse o rush do meio-dia. Era nesse cenário que eu precisava encontrar minha vítima, fiquei observado o movimento até que mirei um homem de uns 25 anos, usava um chapéu mole rodeado por um cordão em vez de fita, um pescoço enorme e apetitoso. Sim, ele seria minha refeição, era interessante como seus olhos não paravam de penetrar nos meus, pensei que ele desconfiasse de mim, mas hesitei, sabia que isso não era possível.

Aqueles olhos claros queriam me dizer alguma coisa, talvez eles implorassem pela vida, talvez fosse um chamado, ou um olhar soberbo, qualquer que fosse a charada para aquele enigma eu estava certo de minhas intenções, porém não conseguia para de compenetrar naqueles olhos, então pela primeira vez desde que me tornei imortal passei a refletir no que fazia.

Reflexos de uma vida sem importância atravessavam minha mente tão fortes como lanças atiradas, podia ver, agora, naqueles olhos, um acaso de tê-lo encontrado nesse momento único de consciência em minha vida sem valor e um destino que eu não sabia decifrar, ambigüidades que levariam a loucura. Como seria rotineira aquela vida, mais um entre bilhões, passos que não voltam e que caminham em direção a eterna sepultura, foi um momento de pena. Deixe-o partir sem tirar sua vida.

Duas horas mais tarde o reencontro na Cour de Rome, na frente da Gare Saint-Lazare com o mesmo chapéu e com o mesmo olhar compenetrante, sem estar tomado por aquele espírito de piedade o matei e me alimentei de seu sangue. Nunca mais veria aqueles claros compenetrantes, mas a partir daquele momento pude perceber o quanto a miséria e a fragilidade humana faziam de mim um ser potente.

Marido da Viúva

Wednesday, March 22, 2006

Arrumando as gavetas



Ricardo pensou estar no controle da situação. Até cantarolava o rapaz! Com o problema já esquecido, seguiria em paz e sim... finalmente dedicaria seu tempo à tão prometida organização mental. Primeiro arrumaria as gavetas, o maldito entrave que o impedia de começar. Uma a uma, de roupas a serem jogadas aos livros a serem relidos, planejava um trabalho impecável, minucioso e recompensador. Sonhava com os elogios posteriores recebidos e as gavetas... seriam apenas o começo. Pretendia faxinar o armário, mas as portas ainda pesavam de tal maneira, faltando coragem para realizá-lo. As gavetas, porém eram esforço primordial. De urgência aparou os cabelos, fez a barba (elemento ápice da retomada) colocou os óculos. Era como se o espelho dissesse de forma fraternal “este é o meu garoto...” Ricardo sabia não sentir um mero dejá vu ou renascimento. Tinha na bagagem experiência e pretendia usá-la a seu beneficio. Lembrou-se do problema. Na primeira gaveta um susto contornado com um sorriso amarelo. A segunda trouxe a mesma reação com mais impacto. Prosseguiu indagando se estava pronto. Consciência: “É agora ou nunca”. Ricardo: “Não tem daqui a pouco?” Despeja tudo friamente, arruma as meias, calças (emociona-se), camisas... Revisa os apreciados estudos na terceira. Era de Imperadores, Roma... Tenta refletir os ensinamentos dos filósofos, mas o clássico “só sei que nada sei”, sugeria (e explicava) seu estado de espírito atual. Sentia-se feliz. O método de organização, educação rígida que foi exposto tornava-se claro agora. O estranho é que nunca ter associado disciplina com liberdade. Quarta é última: doces lembranças, febris, sensoriais. Outro sorriso. Tem uma súbita vertigem, cai mas se levanta. O serviço estava pronto. Dá três passos em direção ao quarto e olha fixamente para o armário.

Sr. Tarântula

Saturday, March 11, 2006

VIAJE - presente do subjuntivo

– LON-DON – o garoto leu com certa dificuldade uma plaqueta. Estava em pé, olhando para cima, diante dos grandes relógios do saguão central do aeroporto.

Fixara por alguns segundos o olhar em cada um dos sete relógios e, mentalmente, ia lendo o nome de cada cidade ali correspondida. Prestava atenção aos ponteiros e às horas que eles marcavam, tentava imaginar como aquele montante de números em círculo, cobertos minuto sim, hora não, podiam informar com exatidão o tempo, assim como tentar entender o porquê de algumas cidades estarem com o mesmo horário e outras não.

Cada movimento do ponteiro mais fino, de cor diferente, era um bater de cílios: seu corpo estava tomado por estes giros. Um movimento rítmico e cadenciado. Outro movimento e alguém corria apressado. Outro movimento e as malas sobre rodas faziam-se passar grunhindo. Mais um movimento e um barulho de avião rompia o ar. Foi neste momento que o garoto teve a impressão de que os ponteiros adquiriram força e giravam como a turbina da aeronave que escutara há pouco. Estava hipnotizado. Seu coração estava batendo no mesmo compasso. Pôde, por um breve intervalo incalculável, talvez uma fração de milésimos, se desligar de seu mundo. Só não pôde mais porque a dor, que talvez vinha da nuca, o arrancou, trazendo-lhe de volta.

– Ande moleque! Vai ficar parado agora? Cadê o dinheiro? Já vendeu as balas?
O olhar pueril sobre os relógios foi aos poucos se embaçando e, conforme pendia a cabeça, um vulto ia tomando forma em primeiro plano. Era sua mãe. O garoto colocou a mão em um de seus bolsos da bermuda que vestia, o bolso que considerava sujo, e tirou algumas notas amassadas e encardidas, umas dobradas sobre as outras. Um agudo barulho de moedas batendo-se entre si foi perceptível também. Em duas tiradas de mão do bolso, entregou tudo o que conseguira a sua mãe, e esta contou nota por nota, moeda por moeda: – Ande!

Novamente a mulher virou um vulto enquanto o garoto baixava-se para pegar sua caixa de papelão com tubinhos de bala dentro. “Redondas que nem os relógios. Muitos relógios aqui dentro, em minhas mãos” pensou o garoto enquanto levantava-se e ia em direção à escada.

A escada situa-se ao lado direito do saguão e liga-se ao mezanino em forma espiralada. Vista de cima, a escada formaria um círculo perfeito. O que chamaria a atenção seria uma pequena cabeça com cabelos pretos contornando este círculo, onde a cada passo, esta cabeça ficaria maior a quem observasse. Enfim o garoto conquistara o último degrau e meneou seu corpo em busca de um comprador para suas balas, que agora já se eram relógios em miniatura.

No café ao canto um sujeito, aparentemente, não estava fazendo nada, muito diferente das outras pessoas que corriam, mexiam em computadores, falavam em aparelhos celulares. Apenas possuía em sua mesa uma xícara e uma espécie de pãozinho, que parecia não ter sido beliscado ainda. De onde o garoto estava, não dava para se enxergar tudo muito bem: apenas viu que o homem estava sentado de costas para os relógios, que iam ficando maiores a cada passo dado. Quando os relógios ficaram em seu tamanho máximo, o homem estava postado a sua frente.

– Uma por cinqüenta centavos. Três por um real – disse ao tranqüilo sujeito, sem olhar muito em seu rosto, mostrando-lhe a caixa com os tubos de balas.
– Duas, por favor – esperou um momento. Queria saber qual seria a reação daquele pequeno vendedor. Mas como o garoto não retrucava, parecia com o olhar perdido para a frente, prosseguiu, tentando ser simpático: – Não, não. Melhor três. Fica o mesmo preço, não é? – e sorriu para ele.
– Fica. Fica sim – pegou três pacotes de balas da caixa em suas mãos e os colocou sobre a mesa. Recebeu o dinheiro e o colocou no bolso sujo. Agora, mais perto do homem, pôde notar que a xícara continha café com leite e que o tal pãozinho era um pão de batata.

O homem percebeu uma certa inquietação naquele pequeno ser que se dispunha a sua frente. Já teve uma larga experiência com crianças. Sabia que o que faltava ao pequeno ser não era dinheiro, mas sim alguém que pudesse-lhe contar uma história. Uma história que o transformaria, que o fizesse viajar.
– Diga, meu rapaz, está tudo bem com você?
– Sim – disse o garoto notando que o relógio London estava quase centrado na cabeça daquele homem.
– O que tanto olha aí atrás de mim? – Já não podia deixar de perguntar isso.
– Os relógios. Marcam horas diferentes. Alguns iguais. Por que?
Sim, a palavra com entonação “por que?” era uma das mais ouvidas por este homem, e imaginou se teria algo intrínseco a ele, que faria um garoto desconhecido usar esta mesma expressão. Fez um sinal com a cabeça para que o garoto se sentasse. E o garoto sentou.
– Cada relógio marca as horas das principais cidades. As principais cidades são aquelas para onde as pessoas viajam mais. Cada cidade, dependendo do lugar onde está, tem um horário diferente daqui. Os relógios servem para que as pessoas possam acertar seus próprios ponteiros, e desembarcar na cidade com seus relógios arrumados.
Isto não fazia sentido ao garoto. Era difícil imaginar que ao mesmo tempo em que estavam ali, conversando, haveria uma outra cidade com hora diferente. O homem percebeu esta falta de compreensão do garoto.
– Imagine que este pão de batata seja o nosso planeta. Tão redondinho quanto! – o homem estava se divertindo ao notar que o garoto estava assustado – E imagine agora que eu sou o Sol.
O garoto olhou para o homem e conseguiu imaginar ele sendo o Sol. Com uma luz tão ofuscante que seu brilho tapava os relógios atrás.
– Eu sou o Sol. Este pãozinho é a Terra. Minha luz só bate nesta parte que está virada pra mim. A parte que está virada pra você não recebe minha luz, está no escuro – começou a girar em sentido horário o pratinho que acomodava o pãozinho – Note que, conforme a Terra vai girando, a parte que estava no escuro vai aos poucos recebendo a luz do Sol, e a parte que estava voltada para o Sol, vai indo para o escuro. Assim, temos as noites e os dias!
Olhos atentos aquele pão. Tanto os do homem quanto os do garoto.
– Veja: se esta parte que está voltada pra mim é o Brasil, logo esta parte que está voltada pra você é o Japão.

O garoto já ouvira em algum lugar que o Japão era do lado contrário ao do Brasil. Que as pessoas andavam de ponta cabeça lá.

– E se aqui no Brasil é meio-dia, no Japão será meia-noite – começou a apontar para diferentes partes do pão de batata – E, por isso, cada cidade em determinado local, tem uma hora diferente, mas as que estão próximas, na mesma faixa, possuem a mesma hora!

O garoto começou a sentir seu coração batendo mais forte. A história que acabara de ouvir era simplesmente fantástica. Esconder seu espanto e admiração se tornara impossível, o que encheu de alegria o homem.

– Pois bem meu garoto! Você deve estar com fome. Vou repartir este planeta com você – e serrou o pão de batata com uma faca prateada brilhante, que conforme ia cortando, ia perdendo seu brilho com as manchas de requeijão que desprendia do salgado. Um pouco de requeijão vazou pelo prato. O homem pensou que se o garoto fosse um pouco mais velho, seria a oportunidade ideal para explicá-lo o que era o magma, e como funcionava os vulcões. Poderia ainda juntar as duas partes novamente e dizer-lhe o que eram as placas tectônicas. “Melhor não. Muita informação por hoje”.
Com um guardanapo embrulhou o pedaço do pão de batata e o entregou ao garoto: – Aqui está sua parte! O Brasil!
“Qual seria o peso do Brasil?” – lentamente o garoto estendeu as duas mãos. O embrulhou ainda mais e segurou firmemente:
– Obrigado.
Queria ter podido falar mais. Agradecer mais. Mas sabia que não conseguiria. Sempre fora travado com as próprias palavras.
– Boa sorte! – O sorriso do homem gentil mostrou ao garoto que ele não precisava se culpar por não ter dito mais nada.

Quando deu por si, o garoto já estava descendo a escada em espiral, com os relógios do saguão passando por sua vista em borrões de velocidade. Ao pé da escada freou.Olhou para seu Brasil e não sentiu vontade de comê-lo. Não era a hora ainda. Colocou-o em seu bolso que considerava limpo, oposto ao bolso considerado sujo.
“Se aqui no Brasil é meio-dia, no Japão será meia-noite” – ficou com essa frase repetindo em sua cabeça enquanto vendia balas-relógios a outros compradores.
Pensava na Terra girando: Claro e escuro. Noite e dia. Quem sabe alguns anos mais a frente este garoto soubesse que, no século VI antes de Cristo, Parmênides já pensava nestas dualidades. Segundo ele, o universo está dividido em duplas de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e o não-ser.
O garoto notou que já estava começando a anoitecer. E as pessoas continuavam apressadas: “Elas estão apressadas porque estão fugindo da noite. É por isso que elas viajam. Saem de um lugar que está anoitecendo para irem a um outro, onde o dia está nascendo. As pessoas que viajam têm medo do escuro. Vivem viajando para estarem sempre com a luz do Sol por perto” – o garoto sentiu-se feliz por mais esta descoberta.

Era hora de ir embora. Viu os relógios grandes do saguão principal refletidos nas grandes portas de vidro do aeroporto. Conforme as portas se dividiam e iam abrindo para os lados, os mesmos relógios iam sumindo. E o ar invadiu o garoto quando ele saiu. Os raios partintes do Sol que anunciavam a chegada da escuridão o iluminou parcialmente. “Meu rosto está iluminado. Minhas costas estão escuras” – lembrou-se imediatamente do seu pão de batata. Desembrulhou-o com cuidado, pois muito do requeijão estava grudado no guardanapo. “A hora é essa”. Em três mordidas o Brasil ficou no escuro.




O Caranguejeira